• Nós por Cá

    sexta-feira, 11 de julho de 2014

    A caçada, a guarda e a caça à multa

    Quem agora se esgueirava ficou, num primeiro momento, tolhido pelo medo que ora lhe punha o sangue a ferver ora lho coagulava. Tinha saído, naquele domingo, mal clareava nas alturas e o povoado era ainda silêncio a querer espreguiçar-se em promessa, para dar um tiro certeiro num laparoto gordo de pelo surrado mas fofinho zurzido de nuvens no ventre.
    Levantou-se no escuro como pena, tateando para não acordar quem ainda continuava embrulhado no sono, sentiu as carícias de um frio que acorda e arrepia, molhadela de água fria em corpo suado. Vestiu-se, deslizou suave para a varanda, evitando as tábuas do soalho que resmungavam ao vai e vem do peso do seu magro corpo. Contemplativo olhou o céu e fez a promessa que viria a tempo da missa. Mas, aquela manhã foi fatídica: o tiro saiu, o coelho fugiu, a guarda-- que andava à sua caça— ouviu, abeirou-se, cercou e perseguiu.
    Recomposto daquele enorme susto, levantou a cabeça e o olhar, observou em procura e como não viu sombra nem mexer de criatura foi, esperando não ser observado, de corpo e braço bem esticado, com uma perna e a bota na ponta de um pé a abrir buraco entre picos. E, finalmente escondeu o cano de fogo em silvado denso sombrio e escuro.
    Com a preocupação ferrada foi espreitar, apertado, o pavor que queria controlar à distância. Para ganhar altura sem se mostrar, a querer despontar com o olhar o mato viçoso, à sua frente, e ver mais além, deitou-se sobre a fraga mulher como quem lhe pertence e num mimetismo abraçou-a. Ficou aderente qual lapa a beijar o fraguedo do afloramento rochoso da loba, amarelecido, sem idade, muito picado e manchado pelas marcas da erosão. Respirou musgo, arrastou-se para espreitar melhor e acomodou-se na dureza daquela magreza esqueletal. Tirou mirada de giro, folheou o monte e viu, lá longe, a patrulha que caminhava algures numa lavra de um alqueire de centeio de semeadura, mais coisa menos coisa, mais adiante sem perder de todo a formação.
    Analisou a patrulha, as praças de correias e de espingarda à bandoleira a apontar para os céus, o Cabo autoritário de pistola à cintura. Reparou ainda que o último guarda caminhava sem braços num ritmo dengoso sem braços no balanço e ficou intrigado. Correu, aproximou -se encoberto, até ter mais nitidez e pareceu-lhe ver a cadelinha imóvel, magra e fina no colo do guarda. Ficou tonto a pensar em turbilhão.
    Viu melhor e era mesmo a sua cadelinha. O que aconteceu? Irado soltou algumas palavras:--Malandro! Matreiro! Que astuto me saiu o comandante do posto, apanhou-me a cadelinha! Desabafou.
    Tinha que entrar no lugar, melhor seria que não fosse visto, antes da patrulha em perseguição. Foi desenhando um plano, porque o sabido do Cabo, de certo, teria o dele…

    Guardou-os como gato-bravo vigia alcateia sempre a ver os seus movimentos de longe.
    Todos agiam da mesma forma e, quem primeiro via dava o alerta a toda a espécie porque as multas, não se condoíam da miséria e qualquer coima era muito, para quem tinha tão pouco porque os ricos, esses, não comiam porque aí quem comia eram os guardas. Temos que reconhecer que era merenda merecida pois, já tinham andado mais de duas léguas desde o pelourinho do concelho.
    Todos temiam, até a sombra do uniforme, uns porque não tinham a licença do burro a caminho da feira, outros porque levavam o carro dos bois na estrada, que só era caminho largo sempre com as valetas arranjadinhas por cantoneiros, sem moço, ou cortavam as curvas para ganhar terreno, ou faltava a licença do carro, ou ainda a chapinha com o número da licença não estava na cheda certa. Ou eram os recos que saíam para a rua, ou as galinhas, ou ainda as águas que escorriam das côrtes ou o pastor que se tinha esquecido do canudo de latão da licença do gado, ou faltava a licença do cão ou era o muro que tinha ficado torto ou a estrumeira que ainda não tinha sido levantada da rua, ou o rego do encaminhamento das águas que desembocava onde não devia… Ou era a navalha, --que andava sempre no bolso--, que tinha a folha comprida… A multa, se vinha, golpeava fundo e todos raivavam a má sorte… Ou era a canalha que tinha feito não sei o quê? Ou os mais gandulos que durante a noite faziam coisas que não lembrava ao diabo,-- coisas que me contaram mas que nem se podem contar.
    Maroteiras que não passavam na severidade do maioral por porem em causa a sua autoridade.

    Ou era a guarda que estava macerada naquele dia, porque tinha sido picada pelo azedume, do poder local, e depois era o pobre que pagava. Vinham e abalavam toda a aldeia. Nesses dias tudo servia para a guarda mostrar serviço, se essa fosse a sua vontade e houvesse necessidade. Em último caso, posto com eles onde eram afagados pelo cavalo-marinho.
    Todos sabiam que tudo podia servir, por isso todos a guardavam e alertavam e, se pudessem fugiam daquela presença que melhor seria que o não fosse. Quando alguém era multado pela primeira vez, por uma qualquer coisa ou causa nova e desconhecida, essa multa era narrada de boca em boca como aviso: “multaram-no porque o ferrão da aguilhada espreitava demais”!
    Acompanhou-os com o olhar e viu que seguiam pelo carreiro, atalho de pé posto usado por pés que vão à rega ou por cabeça que vai levar o almoço em cesta ou cabaz. Ou ainda cabeça e corpo que regressavam sem vaidade no andar,-- já com o sol a varrer-se--, com a pressa toda para fazer a ceia. Seguiam pelo carreiro do lombeiro acima derreados como velhinha com corcunda pronunciada,-- magra de rugas bondosas, pernas em aduela com o lenço a coifar o cabelo--, que se vem arrastando a desenhar sombra de ciclista a fazer caretas esticadas, de sombra e reflexo, a cada movimento de ancas.
    Mãe velha, velha! Respeitada pelas tradições que amou muito para cumprir um desígnio. Foi uma mãe extremosa teve peito para todos, fizeram-na visavó para sua alegria e com o passar dos dias de uma vida longa, arquearam-lhe todo corpo por não ter barriga que os suportasse naquela magreza rija e tenaz: “figos pingo de mel que secam na árvore pegados presos pelo pé de cabecinha caída”.
    O caçador furtivo, sem tempo para reflexões na profundidade da alma, pressentiu o grande perigo que podia ter uma cadelinha magra e fina no colo de um guarda a fazer-se balofo em esforço suado para comer a cada passada a subida a pique, do carreiro riscado: indício de cobra em pó fino de caminho à hora da sesta.
    Encetou, sem demora, uma corrida de pensamentos resolutos e pernas ligeiras para se lhe por à frente. Trilhou ligeiro o caminho num arfar de cansaço físico e nervoso. No alto dos Vala Gotos, cortou o caminho antes de Vale Permianos e desceu sempre a fugir com as solas, das botas gastas, do pó dos caminhos ou da lavra fresca onde ficava decalcado o rasto que podia ser lido e seguido por guarda pisteiro.

    Usando o caminho feito de sombras, fugindo sempre dos raios de sol, que pela manhã penetravam por entre os arvoredos, seguiu encostado às barreiras e golpeou com um movimento rápido como quem abraça encontro e foi dar, de olhos fechados, à sua horta da Lamela.
    Arregaçou um braço todo e com a ponta dos dedos retirou o terrão e a pedra arredondada, do boqueiro e logo a água da frente e debaixo empurrada pela de trás e de cima, explodiu em cachão como convinha para despejar depressa. Pediu desculpa, na sua cabeça ao talho de feijões por vir tão tarde, sem lhe dizer o porquê pois não os queria preocupar.
    Sim porque “os feijões têm coisa” que nos preocupa, é só pensar na pontinha da planta em crescimento que se enrola na estaca sempre pelo mesmo lado, mesmo que tentem enrola-la pelo outro, ela não desiste: saberão eles desde sempre --antes de Kepler e de Galileu, do movimento da terra ou respeitam o movimento aparente do sol? Ou cumprem a sua natureza como nós cumprimos a nossa, convencidos que somos livres.
    O momento não permitia divagações sobre enigmas do mundo e, por isso, até nem lhes deu de beber de mansinho, como era hábito e de seu gosto. Mesmo assim, distribuiu a água pelos regos todos para que a força da água junta, num só rego, não lhe descobrisse e mostrasse a brancura das raízes.
    Não lhe permitia divagações a ele que era só inquietação no momento, mas há sempre coisas que, para nós, são um mistério perturbador. É o acaso? A coisa ou a causa que simplesmente acontece? Brincaram, brincam e brincarão os mistérios do mundo com o nosso entendimento, para o enredarem numa teia de dúvida, que nos desperta sardónica a cada certeza. Será a vida só busca? Ou será só fuga? Ou ainda tão só desassossego ominoso!...
    Alto! Alto, já disse! Vamos suspender isso tudo, pôr fim à dúvida e ao embaraço íntimo, venha a música, venham os amigos, tragam os comes e bebes, venha mais uma explosão de desejos, faça-se festa! Venham umas pitadas, até picantes, de desregramento, -- que ninguém leva a mal--, que nos libertem em alegria e vontade de viver. Vivamos a vida toda até ao cansaço da felicidade! Cansaço?! Sim, porque mesmo aos momentos de felicidade, a Natureza põe limites.
    Acordamos e, se antes tínhamos sofreguidão de saber, de compreender o mundo e depois sede de festa para moinar agora queremos um copo de água fresca! É um novo dia....
    O talho de feijões bebia e hirtava viçoso a agarrar-se às estacas, com mais fervor, a dar-se à luz num querer florir. Mas, o momento era de fuga, enquanto a água corria -- e brincava às escondidas espreitando aqui, ali e além por debaixo das folhas rasteiras dos feijoeiros a esconder o rego, foi ripando e mondando apressado uma mão cheia de ervas daninhas que lhe teriam seu préstimo.
    Pois, naquela manhã, para o bem e para o mal, só tinha ido mesmo regar a sua preciosa horta. (mo. Continua)

    Dinis Costa
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